Desacelerar para conquistar

Ao desenvolver cada vez mais com IA, tenho notado meu cérebro mais acelerado que o de costume. Além disso, tenho sentido mais ansiedade e insegurança, especialmente em relação ao trabalho. Meu palpite é que a IA acelera demais a velocidade com que as coisas são construídas e, consequentemente, pensadas. Tudo é muito rápido quando com um único parágrafo você consegue construir um sistema inteiro.

Principais impactos

  • Menos personalidade – o trabalho produzido não reflete quem você é de fato
  • Muita informação – é fácil ter mais código que o necessário, mais comentários que o necessário, mais testes que o necessário.
  • Maior complexidade – como produzir passa a ser rápido e barato, acabamos colocando mais módulos, mais funções, mais linhas de código, mais documentação, tornando as coisas mais complicadas. E também passamos a escolher novas tecnologias que antes não dominávamos.
  • Pouca retenção – quase não consigo reter as ideias do que estou construindo. Meu cérebro tem um mapa geral, mas não tem os detalhes.
  • Mais expectativa – cada vez mais cobro de mim mesmo em termos de resultados. E também meus clientes me cobram. Antes configurar um servidor do zero em dois dias parecia razoável. Agora parece que todo mundo (principalmente eu mesmo) espera que isso seja feito em poucas horas.

Esse discernimento não veio fácil para mim. Ontem, após uma sessão da tarde no Claudio construindo um módulo para um programa do cliente, notei que ele utilizou uma query SQL que eu não conhecida. Porém, ela trouxe um ganho de desempenho. Mas, pergunto, o que mais ele não colocará lá com o tempo que será um mistério pra mim? E digo, se ele colocou lá esse pedaço de código, digamos essa ideia, sem que eu escolhesse, embora eu tenha autorizado, quem foi que pensou aquela parte do código? Tem outra(s) pessoas trabalhando nesta codebase além de mim, afinal?

Nadando contra a corrente

Hoje é dia de São Boaventura, um homem simples. Ele dizia que não devemos nos ater ao transitório, pois ali existe uma semente de pecado. E a IA é transitória. Assim como tudo que ela produz.

Após rezar, senti a cruz me falando que essa aceleração do pensamento, ansiedade e insegurança no fundo estão ligados a forma de usar IA para acelerar as coisas. Essa aceleração não vem de Deus. É um pensamento macabro, incutido em nossa cultura, que prioriza o efêmero, e não aquilo que dura. Que foca o produto e o resultado, e deixa o ser humano em segundo plano, ou até mesmo o descarta. Digo isso pois não vejo muitas empresas estudando o impacto da IA na saúde de seus funcionários. Só vemos pesquisas sobre a própria IA e como ela é boa nisso, naquilo, etc. Isso quando não dizem abertamente que a tendência é essa mesmo, de substituir as pessoas.

Por isso a partir de agora seguirei essas regrinhas para trabalhar:

  • Não usar nenhuma ferramenta de IA Generativa para acelerar meu trabalho.
  • Usar IA Generativa para auxiliar em dúvidas e estudos.
  • Usar IA Generativa para desacelerar o meu trabalho.

Em ‘A Vida Intelectual’, o Padre Sertillanges nos ensina que o próprio trabalho intelectual é vida do indivíduo, e não os frutos ou resultados destes.

Pois bem, vejo uma oportunidade de ir contra a correnteza aqui. E se ao invés de mandar a IA escrever código, utilizássemos ela para criticar o código que nós escrevemos? E se ela auditasse nosso código, e mais ainda, propusesse caminhos melhores para os pensamentos, projetos e trabalhos que propormos a ela? Seria uma forma de atrasar um pouco mais o desenvolvimento do projeto, mas sem dúvida, seriamos desenvolvedores melhores no final (e o próprio produto, superior).

Rolar para cima