O dia em que escolhi ser pequeno nos negócios para ser melhor

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Este mês passei por um grande desafio no campo profissional. Possuo um negócio de desenvolvimento de sites, a Setor9. Esse negócio na verdade é muito pequeno, possui cerca de dez clientes, mas é responsável por metade da renda mensal de minha família.

Inicei a Setor9 em 2010, ainda solteiro, junto com dois amigos muito queridos. Criávamos sites para pequenas empresas da cidade de Cruzeiro-SP. Chegamos a gozar de um pequeno sucesso, mas devido às situações da vida, o negócio foi fechado.

Oito anos depois, já em 2018, depois de focar todos esses anos na Cursos7, meu site de cursos, resolvi pegar alguns sites para fazer de pessoas próximas, reabrindo assim a Setor9.

Desta vez, no entanto, tinha (e ainda tenho) o objetivo de transformar a Setor9 em uma empresa de software.

Depois de dois anos criando sites e prestando serviços na região e para todo Brasil, eis que surge a primeira proposta de criação de um software verdadeiramente robusto, para um cliente muito estimado.

Ao me sentar com meu cliente, homem sensato nos negócios, expliquei que não poderia atender sua demanda, pois meu negócio é muito pequeno (sou apenas eu), logo não seria capaz de desenvolver com a qualidade necessária no período proposto (6 meses).

O investimento para criação de um software não é baixo. A empresa que deseja desenvolver algo do zero, nestes casos, precisa ter uma clareza muito grande das regras de seu negócio, contratar programadores experientes e consultores para atenderem as demandas da legislação vigente.

Meu cliente porém me animou e propôs que eu aumentasse o tamanho da equipe, pois confiava que eu iria prestar um bom serviço. Fiquei muito feliz com o feedback dele e prometi pensar um pouco mais.

A proposta vai de encontro direto com meus objetivos profissionais e de negócio. O contrato me possibilitaria contratar pessoas para me auxiliar, e poderia focar todos os meus esforços no desenvolvimento do sistema. Esse por sua vez traria know how, experiência e caixa para a Setor9.

Porém, escolhi recusar o negócio.

As palavras a seguir podem não fazer sentido para todos, mas alguns compreenderão.

Quando inicei meu site de cursos, a Cursos7 em 2011, ele rapidamente começou a conquistar alunos. Em pouco tempo estava faturando um valor considerável por meus esforços. Gravando um curso por mês, e tirando todas as despesas, lucrava muito mais do que precisava para viver.

Quando o negócio atingiu cinco mil reais de faturamento, por volta de 2015, eu tive uma crise de consciência, que hoje entendo mais como uma armadilha espiritual.

Durante muitos anos busquei me preparar para montar uma empresa gigante, que faturasse milhões (ganância, cobiça, soberba). A Cursos7 era apenas mais um empreendimento de muitos outros que inicei. Ela porém, estava dando certo.

Infelizmente, como meu desejo por sucesso e resultados financeiros era maior do que aquele que estava tendo depois de trabalhar por três anos (embora já ganhasse mais do que a maioria das pessoas), entrei em crise e tomei uma decisão insensata: iria aumentar a empresa.

Essa história já contei em outros posts, basta para este porém, lembrar até este momento para traçar um paralelo com a situação atual que estou vivendo na Setor9, exatos cinco anos depois.

Satanás é astuto, porém não criativo, ensinava Pe Léo.

A proposta de negócio que meu cliente fez seria boa para todos, principalmente para mim. Mas a verdade: minhas escolhas de vida não me permitem aceitá-la.

Resolvi desde 2019, trabalhar 4 horas por dia, como ato de adoração à Deus (sempre fui um típido workaholic, idólatra). Esse projeto demandaria que eu dobrasse minhas horas de trabalho, pelo menos.

Busco estudar primeiro, para depois criar algo funcional para uso próprio (por exemplo, este sistema que estou criando no momento). Apenas depois de estudar, praticar e evoluir, coloco as habilidades à disposição do cliente. Neste caso em particular, não teria tempo para fazer isso.

Ficou claro, desde o início, que eu não tenho disponibilidade para abraçar esse projeto com a dedicação e o empenho que ele exige. Embora seja a oportunidade que tanto pedi a Deus, não é o momento.

E a coragem para dizer não para o seu sonho? Precisei antes, passar por dias de oração e discernimento, pedindo conselhos e analisando a situação. O livro Exercícios Espirituais de Santo Inácio me ajudou muito.

O curioso foi que neste caso, todas as análises e conselhos me levavam à decisão de aceitar o projeto. Até mesmo em oração na presença de Deus, ele me exortava a fazer aquilo que meu coração desejava, e Ele me daria.

Nessas horas é que vejo como o Senhor é um grande Pai! Ele me ama como sou e quer me dar o melhor, porém sempre com o meu consentimento e colaboração.

Nunca me condenou por querer ser grande e rico. Pelo contrário, em muitas ocasiões me incentivou! Porém sinto, que nessa ocasião, Ele queria algo mais. No fundo eu me sentia provocado a dizer não por amor a Ele, pois embora no campo real todas as condições fossem favoráveis, no campo espiritual travava uma grande batalha.

No estudo bíblico diário, acompanhava o livro dos Macabeus, onde o povo luta para honrar a Deus apesar da cultura helenista que tomava o mundo na época. Apenas por amor, aquele povo obedecia as leis de Deus, pois para o mundo era loucura e inaceitável.

Particularmente, o discurso de Eleazar tocou profundamente minha alma.

“Mas ele, cuspindo e preferindo morrer com honra a viver na infâmia, caminhou voluntariamente para o instrumento de tortura, como devem caminhar os que têm a coragem de rejeitar o que não é permitido comer por amor à vida.”

2 MC 6, 19-20

Caminhou voluntariamente … Jesus, no horto das oliveiras, se entregou voluntariamente ao sacrifício.

Finalmente entendi que nesta batalha espiritual, nós temos que partir voluntariamente para o suplício. Não somos obrigados, como pensamos. Deus não nos obrigará a rejeitar o mundo por amor a Ele.

Atualmente os meus suplícios são as dívidas devido à falência do negócio anterior. Preciso mais do que nunca, de bons contratos para pagar essas dívidas.

Mas sei também, que neste momento, ao confiar nos contratos, estarei confiando nos carros e cavalos, e não estarei me abandonando em Deus completamente.

Me fazer pequeno para que Deus apareça. Essa foi uma das escolhas mais difíceis que já fiz. Perdi uma oportunidade neste mundo, mas ganhei a Vida!